O puerpério vai muito além de apenas 45 dias
Entenda o que é o puerpério emocional e a diferença com o período de resguardo.
Se você é mãe ou está gestante muito provavelmente já tenha ouvido essa palavra: PUERPÉRIO.
E se você conversar com outras mães muito provavelmente elas dirão que é o período mais intenso da vida delas, que você nunca mais vai dormir de novo, que você não tem mais vida, que bebês choram demais e que a hora da bruxa é a pior hora do dia, entre outras coisas que só te fazem concluir que esse é pior período da vida com filhos.
Mas calma, não é bem assim.
Os primeiros dias com um bebe são realmente intensos. É tudo novo para ambos - mãe e bebê - em um período em que o corpo da mulher também está tendo que se adaptar muito rapidamente aos desafios da amamentação. Os hormônios estão a todo vapor, em função de fazer esse corpo entender que o bebê já nasceu e precisa do cuidado da mãe. Esse é o puerpério fisiológico, ou mais informalmente conhecido como período de resguardo, que dura em torno de 45 dias e é caracterizado pelos desafios de um corpo que está fisiologicamente estressado, com déficit de nutrientes após uma gestação e um parto, se adaptando à nova vida.
Mas não é só fisiologicamente que há necessidade de um resguardo.
Emocionalmente, a mulher ainda está se encontrando nessa nova dinâmica familiar. Os desafios da amamentação, a privação de sono, o choro do bebê, a nova rotina que se estabelece, a falta de ajuda, ou o excesso de palpites, tudo isso traz uma demanda psicológica de adaptação.
Esse é o puerpério emocional, ou seja, o período de adaptação emocional e psicológica à maternidade, que pode durar até dois anos de idade da criança, podendo se estender até dois ou três anos após o parto, caso essa mulher não tenha suporte profissional adequado para compreender e elaborar todas essas mudanças e , de fato, se adaptar à maternidade.
Tornar-se mãe é um processo que mobiliza emoções muito profundas, principalmente a depender do contexto social, financeiro, conjugal e estrutural que essa mulher está inserida. Tudo muda: a dinâmica da casa, a relação do casal, muitas vezes a renda, a vida social, as amizades, sua visão de mundo, seus valores e prioridades, entre outros.
É nesse período também que podem surgir a Depressão Perinatal, Transtornos de Ansiedade, Transtornos de Humor, ou outros transtornos conforme as dificuldades enfrentadas por essa nova mãe.
Sinais de puerpério emocional:
No início, até seis meses após o parto, mãe e bebê estão se vinculando e se conhecendo. Então é natural que surjam muitas preocupações relacionadas ao bebê, angústia em ficar sozinha com o bebê ou muito tempo longe dele. Nessa fase também pode haver uma necessidade maior de recolhimento e retraimento social.
Chorar sem motivo, tristeza súbita, introversão, maior irritabilidade e cansaço também são sintomas esperados nos primeiros 30 dias. Se ultrapassarem este período e forem muito intensos e frequentes, busque ajuda.
A partir dos seis meses a vida já começa a ficar um pouco mais estável em relação aos cuidados com o bebê. É quando então a mulher começa a se voltar mais para si mesma. em geral ela começa a buscar mais espaços internos para seu autocuidado físico e emocional - volta a trabalhar, muda o estilo de se vestir, retoma a vida social, retoma a vida conjugal, busca tempo para si. Nesse período também surgem conflitos internos a respeito de sua identidade, sua missão e propósito de vida, questionamentos sobre o futuro, como: que mãe eu quero ser no futuro? que família eu quero ter? que mundo eu quero ajudar a construir para os meus filhos? o que eu quero para minha vida e para a vida dele? quem sou eu agora?
O movimento contrário a esse também pode surgir, e é bastante comum, o que leva à angústia, ansiedade, ao peso da maternidade, ao medo, à dificuldade em se reconhecer e retomar a própria vida. Esse é um sinal claro que essa mulher precisa de ajuda para se ver além da mãe que ela está se tornando.
A adaptação à maternidade vai muito além de um corpo que precisa voltar ao lugar. A todo momento, desde a concepção, descoberta da gestação, gravidez, parto, amamentação, pós parto, estão sendo mobilizadas questões da história de vida dessa mãe, sua infância, seus traumas, a relação com os próprios pais. Tudo isso passa a ser refletido após o nascimento dos filhos e permeia a relação que esta sendo construída com eles.
Por ser um período de maior vulnerabilidade emocional na vida da mulher, cada vez mais tem sido atribuída a devida importância à saúde mental materna.
Ter assistência psicológica durante a gestação, parto e puerpério é efetivo tanto para o diagnóstico, manejo e tratamento de transtornos perinatais como por exemplo a depressão gestacional, depressão pós parto, transtorno de ansiedade, como também é um grande aliado na prevenção destes e outros transtornos. E, ainda que não haja a presença de um transtorno efetivamente, adquirir conhecimento e desenvolver seu autoconhecimento, certamente te ajudarão no seu processo interno e emocional de adaptação à maternidade.
A Psicoterapia e a Sessão de Acolhimento são meios de autocuidado físico e emocional que você merece na sua maternidade. Não se deixe para amanhã.
Katherine Sorroche
Psicologa
CRP 06/76400